sábado, fevereiro 25, 2006

Pedro Barroso

Jardim de Poetas

«Falei-te

sem querer de coisas belas

Como quem abre janelas

para lá do horizonte...

havia em teu olhar firmamento

para cem vidas por momento

ao sabor de um mar de inverno!...

E tu

sem saber lá tricotavas

Um romance de palavras

sem certezas nem futuro

E tu

sonhavas no areal

com um jardim de poetas

superiores e verticais

que, em rigor, nunca existiu

E tu

como se fosse há vinte anos

Subiste ao alto das rochas

lá, onde pousam as gaivotas

subiste ao alto das dunas

onde o vento te possuiu

Cresceu-te no peito um mar de prata

Como se eu fosse alguma vez exemplo

Como se eu fosse

acaso

alguma vez na vida

a perfeição

Mas quando te contei coisas de mim

Daquelas coisas grandes

cá de dentro

Caiste então do sonho e do jardim

e fiz-te, então

amiga esta canção

e tu

ainda sonhas no areal

com um jardim de poetas

superiores e verticais

que, em rigor, nunca existiu

e tu

como se fosse há vinte anos

sobes ao alto das rochas

lá, onde pousam as gaivotas

sobes ao alto das dunas

onde o vento te possuiu!...»

(Nazaré, 2000, in CD "Crónicas da Violentíssima Ternura", 2001)