Pedro Barroso
«Falei-te
sem querer de coisas belas
Como quem abre janelas
para lá do horizonte...
havia em teu olhar firmamento
para cem vidas por momento
ao sabor de um mar de inverno!...
E tu
sem saber lá tricotavas
Um romance de palavras
sem certezas nem futuro
E tu
sonhavas no areal
com um jardim de poetas
superiores e verticais
que, em rigor, nunca existiu
E tu
como se fosse há vinte anos
Subiste ao alto das rochas
lá, onde pousam as gaivotas
subiste ao alto das dunas
onde o vento te possuiu
Cresceu-te no peito um mar de prata
Como se eu fosse alguma vez exemplo
Como se eu fosse
acaso
alguma vez na vida
a perfeição
Mas quando te contei coisas de mim
Daquelas coisas grandes
cá de dentro
Caiste então do sonho e do jardim
e fiz-te, então
amiga esta canção
e tu
ainda sonhas no areal
com um jardim de poetas
superiores e verticais
que, em rigor, nunca existiu
e tu
como se fosse há vinte anos
sobes ao alto das rochas
lá, onde pousam as gaivotas
sobes ao alto das dunas
onde o vento te possuiu!...»
(Nazaré, 2000, in CD "Crónicas da Violentíssima Ternura", 2001)


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