«Há pessoas de quem é dificíl dizer alguma coisa que as apresente definitivamente e na íntegra, no seu aspecto mais típico e característico; são as pessoas chamadas "normais", ou a "maioria", e que constituem, de facto, a enorme maioria de qualquer sociedade (...) São numerosíssimas no mundo estas pessoas, ainda mais numerosas do que parece; dividem-se, como toda a gente, em duas categorias principais: as "limitadas" e as "bastante mais espertas". As primeiras são mais felizes. Não há nada mais fácil para uma pessoa "vulgar" limitada do que, por exemplo, imaginar-se a si mesma como extraordinária e original e com isso se deleitar sem vacilações. (...) a outra categoria (...) é muito mais infeliz do que a dos limitados. O problema consiste em que uma pessoa "normal" inteligente, mesmo imaginando-se a si própria em certos momentos (ou mesmo em toda a vida)um génio e um original, guarda sempre no fundo do coração o verme da dúvida que a leva, às vezes, até ao desespero total; e quando tal pessoa acaba, finalmente por se resignar, já está irremediavelmente envenenada pela vaidade que ficou encafuada dentro dela.»
(F. Dostoievski, O Idiota)

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