Por vezes ainda me esqueço
Sonhei contigo, Vóvó... Abraçaste-me e eu tive medo porque sabia que isso não era possível, sonhava mas abria-se na mente ainda uma ponte com a realidade... Mas eras tu, eram as tuas mãos e o teu cheiro e a tua voz e o teu sorriso... E deu-me uma vontade tão grande de chorar...
Num destes fins-de-semana eu dei comigo a chamar por ti. Era domingo. Tu costumavas vir cá a casa almoçar. E à hora do costume a campainha tocou, porque a Alice continua a vir cá, como antes. Ao ouvir a voz dela, que sempre se juntava à tua, eu esqueci-me que tu tinhas partido e chamei por ti... Tão depressa o fiz, como me calei, envergonhada e triste. Tinha-me esquecido, Vóvó, foram apenas segundos, mas eu acreditei que entraras de novo em minha casa... Depois seguiram-se as lágrimas. Não as chorei na devida altura e agora repetem-se no silêncio do meu quarto. Evito falar de ti. Fingimos todos. Mas acho que sou a única que ainda se esquece do que aconteceu... Foi tudo tão cruelmente repentino que eu não consegui acostumar-me... Tu não estavas doente.
Era de noite e o telefone tocou. Os gritos da minha mãe e a minha mente a despertar confusa, o coração aos saltos, incapaz de perceber o que a minha mãe gritava em desespero. Mas eu ouvira tudo e descera, como um autómato até à cozinha para fazer um chá de tília. Devo ter-me ausentado de mim. Nem uma lágrima. A voz serena procurando acalmar a minha mãe. O chá. E a tarefa cruel de ligar à família. E o sono que veio colapsar essa madrugada num abismo onde tudo se apaga.
Sempre o sono. O sono a que recorro quando o meu mundo se abate.

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