quarta-feira, janeiro 11, 2006

Saudades

Ontem, enquanto regressava a casa, fui incandeada pelas luzes de uma ambulância parada à porta de um prédio e depressa mergulhei na saudade... Revivi as imagens... E lembrei-me, Vóvó, pois com a agitação dos dias fica mais fácil esquecer, que não ia mais voltar a sentir o teu abraço, nem os beijos que me davas quando sabias de mais um qualquer feito meu (que de facto, nenhum valor tinha, a não ser a teus olhos)... Lembrei-me e não consegui evitar as lágrimas repentinas... Lembrei de tanta coisa... E tive tantas saudades... Esforço-me sempre por pensar que dormes apenas Vóvó nos braços do Deus que amo mais que as minhas forças, mas a saudade é um sentimento cruel, que por vezes se sobrepõe a tudo, até à fé... Ainda que por momentos...
Vóvó, eu sei que devia ter passado mais momentos contigo, sentia isso todos os dias, sabia que iria lamentar profundamente as minhas ausências, mas tu bem vias como eu me esforçava e como a vida me tragava as forças num corre-corre de quem luta por mais e melhor... Por isso, só me sobrava o cansaço, a inércia de me levantar e ir até tua casa falar contigo... Quando sabia, que no fundo, sempre me ouvias mais que a minha mãe... Pena desta casa não ser enorme para teres morado cá connosco, certamente me sentiria menos só... Embora saiba que teria que te ouvir constantemente, a "martelar-me" a cabeça, que já é um pouco tarde para me casar, que tenho que me casar e dar-te netos !!! Minha avó, brincava contigo dizendo que até aos 45 eu tinha ainda muito tempo, ficavas horrorizada, barafustavas comigo e começavas a chorar que querias muito viver até me veres casar, até veres o teu primeiro bisneto!... E eu dizia-te: "Ó Vó, tu ainda vais durar muuuuuuito tempo, não digas essas coisas!!!", mas tu dizias sempre que não, que não duravas muito mais... E só repetias incessantemente que me querias ver com alguém, nunca suportaste a ideia de que eu ficasse só... Nunca...
Eu é que nunca pensei que a asma te pudesse roubar de nós, nunca pensei, nunca, nunca, nunca!!!... Sempre te dizia que tudo era psicossomático, que os próprios médicos diziam que não precisavas daquelas máquinas às quais te tinhas habituado, que era tudo fruto do teu pânico, mas que não te faltava o ar na realidade...
E por isso não percebo???!!... Não sei o que te aconteceu naquela madrugada???!... Porque paraste de respirar, Vóvó?? Porquê??... Eu sei que pedias muito ao Senhor que te viesse buscar, tinhas dores, o inverno nunca é fácil para os velhinhos, os ossos ressoam em dores pelo seus corpos gastos, e tu tinhas muitas dores, mas eu não queria que tivesse sido já, Vóvó... Fazes falta, muita falta... A minha tia é para mim uma preocupação constante, não suporto sabê-la só, sei que tu eras tudo para ela...
E dou por mim, assim, perdida nas memórias, recordando-me do tempo que eu passava enfiada no galinheiro do quintal lá da casa, e do teu ar reprovador quando me vias chegar completamente imunda!!!... Eu gostava de estar com as galinhas, Vóvó, nunca soube como eras capaz de as comer e de me dizer para as comer também??... Talvez por isso não gostasses que eu me afeiçoasse tanto a elas...
Ontem no carro lembrei-me também das histórias que contavas, da tua meninice, das canções antigas que ainda hoje sei decor!...
E um mundo inteiro de carinho que teria para contar... E a história da tua vida que te prometi construir um dia!!!