sexta-feira, dezembro 23, 2005

Para a minha Avó

Sempre te disse, Vóvó que escreveria um livro sobre a tua vida... Pensei apenas que o faria enquanto ainda estivesses ao meu lado, para me deliciares com todas as estórias que contavas... Sempre achei, Vóvó que o mundo merecia conhecer-te, escutar as tuas memórias, o encanto dos teus passos, desde que nasceste naquela terrinha em Sever (que ainda não conheci, mas prometo-te fazê-lo em breve), as intrigas que sofreu a tua mãe, pobre mulher assustada, sozinha com uma filha nos braços, a sua fuga para o Porto, temendo a família poderosa do homem que amava e o teu pai que a procurou ainda, sem a achar no Porto mas que acabou fazendo a vontade à família casando com uma fidalga... A tua vida de batalha e sacrifícios com a tua mãe... E o irmão abastado que acabou por tirar o curso que tanto sonharas...
E mais de mil aventuras e encruzilhadas e desencontros e desentendidos... E os teus seis filhos que te amaram até ao fim e os teus dez netos e a vida feliz, apesar das agruras, que tiveste... E o teu Senhor, a quem servias com fervor, que te veio buscar para os Seus braços, roubando-te de nós num momento em que não esperávamos... Minha querida Avó, a minha memória está povoada de espaços e cenários de infância onde tu estás sempre presente... Quanta paciência foi precisa, Vóvó? Foram quase duas décadas que passei na tua casa... A casa onde nunca mais entrei desde que o Avô faleceu e que sei que agora também não mais o farei... A casa da minha infância, onde eu brincava com as galinhas e os pintos que o avô criava... A casa onde ri, chorei, tropecei e estudei e brinquei, brinquei, brinquei... A casa das minhas memórias mais queridas... A tua casa minha Avózinha...
Jamais pensei que te tirassem tão cedo do meu espaço!...
Mas sei que te ausentas apenas por alguns instantes, um dia estarei aí também contigo... Ao pé do nosso Deus que ambas amávamos e desejávamos ver face a face... Tu já O vês, primeiro que eu, tu O vês...
Minha avó... Sei que dormes o sono dos justos...